a morte e a morte de Diadorim

Postado em coisas da vida, literatura com as tags , em maio 21, 2010 por corpocaloso

não sei de onde. só sei que foi.

eu nunca li o “Grande Sertão: Veredas” todo. só um ou outro trecho.
certo dia q estava indo a casa de minha mãe, era no dia das mães. levei o livro, porque tinha pensado na cena em que Riobaldo descobre que Diadorim é mulher.
é a unica cena de q me lembro naquela série da TVGlobo (que nao acompanhei) com o Tony Ramos e a Bruna Lombardi: o corpo nú e morto, a luz lá de fora, as borboletas, etc.
e caí em mim que não tinha lido as palavras do Rosa dizendo isso.
então levei o livro comigo e li no metrô. catei a parte da morte e fui lendo (vou ter a pachorra de transcrever):

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Em dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. e a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse…
Diadorim – nú de tudo. E ela disse:
- “a Deus dada. Pobrezinha…”
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… Estarreci. A dôr não pode mais do que a surpresa. A côice d’arma, de coronha…
Ela era. Tal que assim se desncantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
-”Meu amor!…”
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nesse momento eu fechei o livro e estava chorando. no metrô.
poucas vezes chorei sozinho lendo algo. menos ainda na rua.
cinema ou teatro ou música é mais fácil. de chorar.

que alguém me desminta se eu estiver enganado, mas acho um dos momentos mais tristes da literatura.

fico pensando em como deve ter sido ler a primeira edição, acompanhar toda a saga quase bíblica e descobrir isso no fnal. Não tenho noção se dava pra perceber no decorrer da leitura que seria assim.

que grande filho-da-puta era esse Rosa…

Por que eu amo post rock

Postado em escritos, musica em maio 3, 2010 por corpocaloso

eu amo músicas que não começam nunca.
e que acabam de repente.
adoro músicas que não chegam a lugar nenhum.
e vão a muitos.
eu amo silêncios depois de um turbilhão de pratos, guitarras e baixo.
eu adoro humming que fica depois de uma barulheira.
adoro ouvir notinhas aqui e ali sabendo que a musica vai crescendo e estourando e se embolando e aquelas notinhas ainda estarão aqui e ali.
eu amo quando os pedais são também instrumentos.
amo células harmônicas que se repetem infinitamente e amo mais ainda quando elas fogem e viram outra coisa, outra música sem sair da música.
amo elementos estranhos que entram na melodia, uma voz, uma palavra, o barulho dos dedos escorregando nas cordas, água caindo, vidro, um sopro.
eu adoro músicas que não tem letra, mas tem discurso e poesia.
que não narram mas ecoam histórias
eu amo musica textural. eu amo músicas que sugerem, que não se presumem canções, mas obras abertas.
eu adoro quando a bateria é quase melódica, quando quebra, quando dança e se mistura e sobe e desce e silencia.
eu amo mantras e mais ainda quando eles se quebram e se reconstroem e somem e voltam novamente e ficam ali sem estar ali exatamente. sugestão melódica.
eu adoro improviso controlado. paradoxos. barulhos, silêncios, melodias delicadamente violentas e microfonias doces.
eu amo, mais que tudo, não saber pra onde a música vai, que som vai entrar, quando vai acabar. se vai acabar…

(uma proposição)

Postado em arte em outubro 12, 2008 por corpocaloso
caderno sobre caderno

caderno sobre caderno

Aos 18, em vez do Serviço Militar Obrigatório, todos os jovens (homens e mulheres) deveriam prestar o “Serviço Poético Voluntário”.
Um ano, pelo menos, de suas vidas mergulhados no pensar e fazer poético (em texto, em imagens, em movimentos, em sons, em cheiros, em gostos).
Alguns seguiriam carreira, outros levariam como mais uma obrigação a cumprir. Mas teriam tb seu Certificado de Reservista Poético. (CRP).
O Serviço seria voluntário, mas desde cedo, as crianças seriam estimuladas a pensar e a produzir (seja com matemática ou com pincéis, seja com o corpo ou com um instrumento musical, seja com a escrita ou seja com a geografia…) com os seus conhecimentos adquiridos e trocados – em sala de aula e no quintal da escola, na rua e em suas casas – para q possam se sentir à vontade no universo poético.
Ao se aproximar o final da vida, os anciãos seriam estimulados a rememorar e registrar seus percursos e a multiplicar seus conhecimentos e habilidades e pensamentos aos mais jovens.

eu não tenho muitos preconceitos

Postado em coisas da vida em setembro 9, 2008 por corpocaloso
sério, não tenho mesmo.
mas um eu tenho.

não gosto de gente burra.

não o ignorante, que não sabe porque não sabe ou não teve oportunidade ou seilá.

não suporto o “estudar pra quê?” ou o “pra que ler tanto?”

me dá urticária, dá vontade de pular no pescoço.

principalmente de quem tem orgulho de ser burro, que gosta de “não saber”.

acabo sendo grosso. ou pior, irônico.
é péssimo, feio, mas não consigo me controlar.
prefiro ficar longe.

é uma falha de caráter minha.

à primeira vista (escrito 14)

Postado em escritos em setembro 9, 2008 por corpocaloso

(uma idéia por dia. um escrito por dia. uma tarefa diária. um método imposto. um exercício. cada número, um dia de dezembro de 2005. sem revisão ou releitura. esse foi o dia 20. ainda não segui o projeto que é produzir imagens pra cada texto.)

quando a vi, sabia que seria pra sempre, que teríamos uma casa verde claro, três filhos, um carro comprado em 36 vezes, fogão, geladeira, tv a cabo, um jardim no quintal. mas ela atravessou a rua. nunca mais a vi.

eu não sou poeta (escrito 21)

Postado em escritos em setembro 9, 2008 por corpocaloso

(uma idéia por dia. um escrito por dia. uma tarefa diária. um método imposto. um exercício. cada número, um dia de dezembro de 2005. sem revisão ou releitura. esse foi o dia 20. ainda não segui o projeto que é produzir imagens pra cada texto.)

olhou para as coisas: objetos, rostos, paredes, revistas. não achou nem uma palavra, nem uma imagem, nenhuma metáfora. nada. não conseguiu dormir. tinha prazos a cumprir. levantou num salto, andou de um extremo a outro do apartamento. abriu janelas. fechou janelas. viu televisão. ouviu música. correu até a cozinha. olhou para o cutelo. num gesto desesperado cortou a falange do indicador esquerdo. agora tinha um tema.

do it yourself

Postado em coisas da vida em agosto 29, 2008 por corpocaloso

ou sim, fui eu que fiz.

proposição número 1

Postado em coisas da vida, escritos em agosto 7, 2008 por corpocaloso

“disse a raposa ao principezinho: tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”

seria uma declaração de amor ou uma maldição?, perguntou o cético.

cemitério (escrito 20)

Postado em escritos em maio 1, 2008 por corpocaloso

(uma idéia por dia. um escrito por dia. uma tarefa diária. um método imposto. um exercício. cada número, um dia de dezembro de 2005.  sem revisão ou releitura. esse foi o dia 20. ainda não segui o projeto que é produzir imagens pra cada texto.)

era sempre assim quando tinha pensamentos complexos. uma dor de cabeça abissal. obviamente isso não acontecia com pensamentos corriqueiros ou lugares-comuns. sentia os pensamentos complexos rondando as linhas do cérebro. cada volta, cada curva, cada entranha. e doía. sentia todo o percurso dolorosamente. cada sinapse, um latejo. até que saltava-lhe a idéia. era um alívio. algumas vezes elas cresciam e viravam coisas. mas não sempre. no mais das vezes tomava a pequena nas mãos e pregava-lhe num bloco de notas para ali admirá-la, por vezes. embalsamada ideiazinha junto com todas as outras, todas as centenas de natimortas anotadas.

meandros da arte contemporânea

Postado em arte, arte visual em abril 29, 2008 por corpocaloso

quero aqui informar que a dengue que peguei foi uma instalação transitória corporal.

estive em exposição não numa galeria, mas num hospital, por 4 dias, o que por si só representa a minha recusa ao sistema de arte contemporâneo.

a experiência profunda de transformação a que fui submetido contou com a colaboração (sim, é um projeto colaborativo) de um mosquito.

infelizmente não repetirei a obra in situ, já q seria contraditório com seu caráter temporário-transitório.

mas o conceito está disseminado.

agradecido,
Cosco
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