a morte e a morte de Diadorim
eu nunca li o “Grande Sertão: Veredas” todo. só um ou outro trecho.
certo dia q estava indo a casa de minha mãe, era no dia das mães. levei o livro, porque tinha pensado na cena em que Riobaldo descobre que Diadorim é mulher.
é a unica cena de q me lembro naquela série da TVGlobo (que nao acompanhei) com o Tony Ramos e a Bruna Lombardi: o corpo nú e morto, a luz lá de fora, as borboletas, etc.
e caí em mim que não tinha lido as palavras do Rosa dizendo isso.
então levei o livro comigo e li no metrô. catei a parte da morte e fui lendo (vou ter a pachorra de transcrever):
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Em dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. e a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse…
Diadorim – nú de tudo. E ela disse:
- “a Deus dada. Pobrezinha…”
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… Estarreci. A dôr não pode mais do que a surpresa. A côice d’arma, de coronha…
Ela era. Tal que assim se desncantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para trás, incendiável: abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
-”Meu amor!…”
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nesse momento eu fechei o livro e estava chorando. no metrô.
poucas vezes chorei sozinho lendo algo. menos ainda na rua.
cinema ou teatro ou música é mais fácil. de chorar.
que alguém me desminta se eu estiver enganado, mas acho um dos momentos mais tristes da literatura.
fico pensando em como deve ter sido ler a primeira edição, acompanhar toda a saga quase bíblica e descobrir isso no fnal. Não tenho noção se dava pra perceber no decorrer da leitura que seria assim.
que grande filho-da-puta era esse Rosa…
